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No fundo dos Alpes Austríacos está o começo de um tesouro internacional. Após uma longa e perigosa escalada pela encosta da montanha, ou um passeio de elevador para aqueles sem experiência de caça ao tesouro,...

No fundo dos Alpes Austríacos está o começo de um tesouro internacional.

Após uma longa e perigosa escalada pela encosta da montanha, ou um passeio de elevador para aqueles sem experiência de caça ao tesouro, a entrada para a mina de sal histórica aguarda.

Dentro de um túnel escuro bacana na entrada, tem uma coleção de caixas pesadas cheias de ouro? Segredos governamentais? A Arca da Aliança?

Não.

Elas estão cheias de ladrilhos de banheiro comuns. Talvez não sejam exatamente iguais aqueles á venda num Home Depot, mas estão bem perto.

A diferença está na superfície. Cada uma conta uma história com textos e imagens. Cada ladrilho é uma peça de um quebra cabeça para contar a história de nosso tempo.

Com um microfilme de cerâmica, Martin Kunze é capaz de colocar milhares de páginas de texto e imagens em alguns tabletes de cerâmica. À parte do texto, ele também convida contribuidores a incluírem imagens ou representações gráficas do som. (Fotografado por Jenn Morrison)

O papel degrada, e as memórias digitais podem ser apagadas pela tecnologia que a criou. Mas, a informação deixada nos ladrilhos é projetada para levar a informação de um mundo digital para o pŕoximo milhão de anos.

Martin Kunze, um ceramista que vive em Gmunden, Áustria, foi inspirado ao ler “The World Without Us”, um livro de não-ficção escrito por Alan Weisman que explora o que aconteceria com a Terra e todas as estruturas feitas pelo Homem se a Humanidade desaparecesse repentinamente.

“A escrita mais generalizada seria o que estiver em panelas de aço inoxidável e no verso de ladrilhos de banheiro”, Kunze disse. “Seria o caso de logos de empresa em tubos de esgoto se tornem os únicos traços escritos de nossa era”.

Kunze e sua esposa, Masha, operam uma loja que vende pratos, arte e, mais importante, ladrilhos customizados. Ele tem trabalhado com cerâmica toda sua vida.

O que aconteceria se as marcas encontradas em ladrilhos de banheiro não fossem logos e números sem sentido, ele imaginou. O que aconteceria se elas contivessem um registro complexo do mundo?

Memory of Mankind nasceu.

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A uma hora de Gmunden está a pacata cidade de Hallstatt. A arquitetura clássica e cheiros de bolos quentes dão a impressão da entrada num diorama de um conto de fada aninhado nos Alpes Austríacos.

A região tem sido ocupada por mais de 7,000 anos, então tem fotos o suficiente para satisfazer o viajante. Pouco além do que eles sabem é que aninhada no alto tem a mina de sal mais antiga do mundo ainda ativa e é o começo do que Kunze acredita ser a maior cápsula do tempo do mundo.

No centro dos Alpes Austríacos, na mina de sal mais antiga do mundo, o arquivo do Memory of Mankind está armazenado. Uma localização que Kunze escolheu especificamente para proteger a informação para as gerações vindouras. (Fotografado por Jenn Morrison)

Empilhados em caixas escondidas numa pequena alcova estão todos os tabletes que Kunze fez nos últimos cinco anos. Alguns contém contexto histórico, alguns, histórias pessoais, alguns, trabalhos artísticos, algumas fotografias e alguns jornais.

Histórias pessoais são uma grande parte do arquivo e é uma das coisas que colocam essa colação à parte das outras.

“É claro, você pode reconstruir a história a partir de contratos. Mas reconstruir nossas vidas diárias só é possível quando você dá um insight dentro de nosso dia a dia”, Kunze disse. “… Essas histórias pessoais são uma boa forma de mostrar pelo o que vivemos”.

Escondido na mina, a atual coleção está protegida. Enquanto arquivos nacionais e museus tipicamente tem um foco exclusivo ou limitado, o projeto Memory of Mankind convida todos que desejam contribuir para decidir o que deve ser salvo e relembrado. (Fotografado por Jenn Morrison)

O ex-diretor da Mina de Salzwelten assinou um contrato com o Memory of Mankind que permite o arquivo permanecer lá, sem aluguel, permanentemente. Entretanto, a organização é responsável por quaisquer custos para expandir e abrir espaços adicionais com o objetivo de preservar o arquivo enquanto ele for crescendo. Pode ter um custo ao redor de 200,000 euros por expansão.

Outros custos da organização não-lucrativa são mantidos baixos, pois Kunze pode fazer a maior parte do trabalho em seu estúdio caseiro. Memory of Mankind está sempre realizando um financiamento coletivo para criar mais tabletes e expandir o espaço.

Scott Yelich, um amante autoproclamado do arquivo, vive em Nova York, está planejando projetar um desses tabletes esse verão com sua família. Ele quer que seus filhos sejam conectados com o passado e o futuro.

“É tão fácil destruir coisas”, Yelich disse. “Seja você vendo pessoas explodindo artefatos antigos, ou coisas estragando com o tempo. Eu acho que que é quase natural criar algo que estraga e desaparece. É bem mais difícil criar algo que dure.”

Kunze acredita que essa geração de usuários da tecnologia foram levados a pensar que suas fotos, vídeos e mídia social vão tornar suas memórias imortais.

“Devido ao sobrecarregamento digital,” ele disse, “eu acho que vai ocorrer de num futuro bem próximo em que teremos de apagar muita informação devido ao uso de energia.”

Kunze acredita que não podemos armazenar tudo para sempre, não vai depender de indivíduos para descobrir o que deverá ser mantido numa caixa segura e o que deverá ser jogado fora. Os Humanos não vão selecionar os itens de valor. Kunze diz que itens como fotos de família serão os primeiros a se perderem.

“Terá uma época de deleção por algorítimos”, ele disse. “E isso significa que a imagem que nossos netos terão de nós será criada por máquinas.”

Quem criará esses algorítimos? Grandes jogadores como Google, Facebook e Apple tem um campo na Carolina do Norte com os principais data centers. Eles podem continuar expandindo com a demanda, ou Kunze está certo e a “nuvem” onipresente vai nos sufocar no fim? Se isso ocorrer, dilemas éticos de armazenamento de dados podem chegar mais perto de casa do que muitos devem desejar.

Paul Jones, um professor de dupla consultoria com a School of Information and Library Science e a School of Media and Journalism na UNC-CH, disse que juntar informação é o que as bibliotecas e arquivos tem feito por séculos.

“Se é muito usado, será guardado”, ele disse. “Mas se ninguém a usar, e você tem pouco espaço, então não vale a pena guardar.”

Mesmo se as fotos de família sobreviverem aos cortes digitais, Kunze não é otimista sobre a viabilidade de longo prazo da informação digital. Se peças chaves de informação, como taxas de bites e tamanho de bytes, são desconhecidas, perdidas ou esquecidas, decodificar os dados digitais se torna um pesadelo de encriptação. Kunze disse que sem essas peças chaves de informação, nem mesmo os super computadores mais rápidos do mundo podem descobrir.

“É matematicamente impossível na duração do nosso Universo decifrar os dados digitais”, ele disse.

Jones diz que a transferência digital é um problema.

“Bandas que estavam apenas em 8-tracks e nunca foram atualizadas, estão perdidas agora”, ele disse. “Nós estamos vendo a mesma coisa com os CD’s.”

Quanto a probabilidade de restaurar a informação digital, Jones está na em cima do muro. Se você começar do zero, ele alega ser impossível, mas não acredita que qualquer sociedade fosse realmente começar do zero.

“Eu aposto que depende de quão estúpidas você acha que as inteligências futuras serão”, ele disse.

Kunze acredita que a resposta para o problema digital pode ser resolvido voltando para o básico e armazenando-a num material resistente a pressão e calor e que seja legível. Sem precisar de tecnologia.

Catherine Plaut, se juntou no Memory of Mankind no último Novembro como embaixadora, disse que esse processo de colar na cerâmica é a primeira solução que fez sentido.

“De alguma forma, cada projeto que ouvi sobre preservar a forma como somos hoje entra em conflito entre armazenamento analógico, digital e físico. Eles parecem cachorros correndo atrás de sua própria cauda”, Plaut disse. “Eles vêm com uma solução que na verdade é o problema.”

Em adição ao ser um um dispositivo de armazenamento de dados durável, Kunze tem outro motivo por ter escolhido trabalhar com esse material. Argila é barata como, bem, terra.

“Se o material onde os dados estão armazenados for sempre mais valioso que a informação, então ela será perdida”, ele disse.

A informação é impressa em um papel especial de transferência com uma mancha de cerâmica e é então cozido em um forno. O processo é similar á forma como fotos de família são colocadas em canecas de café que têm em toda cozinha de avó.

Kunze corta a impressão de uma nova adição á capsula em seu estúdio caseiro em Gmunden, Áustria. (Fotografado por Emma Carl)

Adicionalmente, ele está desenvolvendo o que chama de microfilme de cerâmica, que é uma folha de rocha dura tão grossa quanto dois cartões, 5 milhões de caracteres podem ser lidos com uma lente de aumento de 10x de ampliação.

“Se você quiser armazenar todos os sete volumes de Harry Potter, só precisa de dois microfilmes de cerâmica”, ele disse.

Olhando através de uma lente de aumento, Kunze demonstra a habilidade de ler milhões de caracteres condensados num material mínimo. (Fotografado por Emma Carl)
Na mina de sal de Hallstatt, Kunze olha algumas das contribuições do arquivo. Ele encoraja as pessoas a enviarem suas histórias pessoais, como casamentos, para representar uma imagem bem feita de nossa época. (Fotografado por Jenn Morrison)

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Muitos acreditam que isso não é nada além de um projeto de fim do mundo. Afinal, se preparar para o fim da era digital e do reino Humano na Terra pode parecer meio loucura se apresentar dessa forma.

O arquivo é projetado com duas linhas do tempo em mente. A primeira é o motivo de Kunze não considerar esse arquivo como um cofre do fim do mundo.

A primeira linha do tempo é para conectar os netos com seus avós. Em ordem de combater essa desconexão geracional, ele construiu um elemento familiar nesse projeto.

Ele dá para cada contribuidor do projeto um pequeno token simbólico com instruções de que ele deve ser passado para cada outra geração. A cada 50 anos, começando em 2070, os donos dos tokens se reunirão para realizar uma reavaliação dos conteúdos do arquivo.

Esses discos de cerâmica que cabem na palma da mão servem também para outro propósito que se relaciona com um período de tempo ainda maior. É uma época que nem os filhos de ninguém, ou mesmo os netos de seus netos, verão.

Catherine Plaut, coordenadora do projeto, segura um dos tokens do arquivo. As instruções que vem com o token indicam que ele deve ser passado para as gerações mais jovens, onde decidirão o que deve ser adicionado ao arquivo. (Fotografado por Emma Carl)

Um milhão de anos pode não ser nada além de um momento da história de nosso Universo. Mas para muitas pessoas, é um número complicado se se entender.

Os Humanos ainda andarão sobre o globo, ou teremos sumido como o T-Rex? Para Kunze, essa resposta parece óbvia.

“Quando você fala sobre muito tempo, a pergunta não é ‘se’, mas ‘como’ e ‘quando’”, ele disse.

Pela época em que o Homem deixar a Terra, seja em 200 ou 200,000 anos, Kunze espera ver milhares de seus tokens espalhados pelo globo.

Cada token é um mapa simbólico que deve guiar uma futura sociedade inteligente à mina e à história de nossa época.

O mapa é intencionalmente enigmático. Ele teme que o arquivo caia nas mãos de uma sociedade imatura. Ele não quer pessoas similares aos antigos Gregos e Romanos tropeçando na mina e não entendendo de verdade a importância do material.

Mas Kunze tem esperança de que quando uma sociedade moderna aparecer, eles serão capazes de seguir o mapa do tesouro por todo caminho até o arquivo perfeitamente preservado.

Kunze projetou o token para representar a localização do arquivo com um ponto de cruzada em Hallstatt, Áustria. Ele antecipa que apesar das mudanças geológicas, sociedades inteligentes futuras serão capazes de entender sua localização. (Fotografado por Emma Carl)

Uma das formas em que o conteúdo será preservado tem relação com a própria montanha. Entretanto, elas não são tão importantes quanto antes.

A abertura cavada na montanha vai lentamente se fechar em cerca da mesma taxa de velocidade na qual as unhas crescem.

O interior da mina é iluminado para um tour guiado. O tour excluí o Memory of Mankind. Acho que eles passam sem ter o conhecimento do que Kunze descreve como o “santo graal do conhecimento do século 21”. (Fotografado por Jenn Morrison)

Nem todos acreditam na habilidade do token de levar uma sociedade ao arquivo. Dra. Jennifer Gates-Foster, uma arqueóloga e professora do UNC-Chapel Hill, disse que encontrar o arquivo, mesmo com tecnologia de mapeamento avançada e entendimento de geologia, pode não ser tão fácil.

“Acho que terá muitos arqueólogos confusos no futuro”, ela disse.

Entretanto, ela é otimista quanto ao futuro, dizendo que os arqueólogos poderão entender as ideias das sociedades mesmo sem projetos desse tipo. Ela não acredita que a informação digital tornará impossível de entender a nossa época.

“A impermanência da comunicação Humana é uma característica permanente de nossa sociedade”, ela disse.

Se sociedades futuras tropeçarem no tesouro que está na mina de sal, eles poderão ler Shakespeare lado a lado com Harry Potter. Eles poderão ler tweets controversos de políticos modernos e até a receita de biscoitos de chocolate da vovó que ela jurou que levaria para o túmulo.

“Mas é claro, tem pessoas que dirão que é melhor que tudo do nosso tempo seja esquecido”, Kunze disse.

Não obstante, Kunze quer que tudo significativo tenha uma chance de ser lembrado. Em adição às contribuições pessoais, ele está trabalhando com universidades, organizações históricas, principais publicadores, bibliotecas e outros museus para juntar textos e imagens que valem a pena de serem preservados. Mas é claro, ele também tem a habilidade de preservar o que acredita estar deixando de fora.

Até agora, Memory of Mankind está aceitando todas as contribuições desde que o contribuidor possa argumentar sobre a sua importância – isso incluí biscoitos de chocolate. Isso é o que coloca seu trabalho à parte de um arquivo governamental regido por conjuntos rígidos de regras e tendências políticas.

“Eles são arquivos de cima para baixo, e esse projeto é completamente o oposto”, ele disse. “É um projeto de baixo para cima.”

Kunze entra através da escuridão da mina de sal para checar o arquivo. Apesar do futuro desconhecido dos dados digitais, Kunze diz estar confiante de que o Memory of Mankind será protegido por sociedades futuras. (Fotografado por Jenn Morrison)

Sarah Knoots, arquivista do estado da Carolina do Norte, opera um arquivo governamental. O State Archives da Carolina do Norte é apontado por conter tudo de significativo histórico para o Estado. Tudo, desde certidões de nascimento até cartas da Segunda Guerra podem ser encontrados na coleção.

Knoots se tornou consciente dos desafios de preservar a história digital enquanto trabalhava com a coleção dos registros da era do Vietnam dos Veteranos do Estado. Ela disse que registrar as guerras atuais não será o mesmo.

“Você não vai encontrar caixas de textos”, ela disse.

Kunze vê que os arquivos estatais e nacionais são problemáticos, mas valiosos. Ele só deseja que o levassem mais a sério.

“Eles não gostam da ideia de que pessoas privadas possam criar coleções e assim preservar a história de nossa época”, ele disse.

Ele sente que seu projeto não deva ser desconsiderado e que devia ser visto como um arquivo viável onde servirá como uma janela, da forma como é atualmente entendido, para as gerações e espécies que vierem.

“Eles desconsideram o fato de que todos os grandes museus ao redor do mundo começaram como coleções privadas de algumas pessoas doidas”, ele disse.


História por Rebekah Dare Guin

Fotos e vídeo por Jenn Morrison e Emma Carl

Traduzido por Erick Soares de Making memories: a time capsule project for all of mankind.

Publicação arquivada em