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Em menos de uma hora, a decisão foi tomada. Era 2 de dezembro e Avi Loeb, professor de astronomia em Harvard, estava com Yuri Milner, o bilionário e fundador russo da Breakthrough Initiatives um empreendimento...

Em menos de uma hora, a decisão foi tomada. Era 2 de dezembro e Avi Loeb, professor de astronomia em Harvard, estava com Yuri Milner, o bilionário e fundador russo da Breakthrough Initiatives um empreendimento de caça alienígena de cem milhões de dólares. Milner convidou Loeb, um conselheiro do projeto, para a sua casa, em Palo Alto, para discutir as características bizarras do objeto interestelar ‘Oumuamua, o primeiro visitante conhecido de outro sistema solar, o corpo longo e esbelto, uma forma curiosa para uma rocha espacial.

Os dois concordaram que havia alguma chance do ‘Oumuamua não ser o que parecia. Onze dias depois, o projeto Breakthrough Listen apontou o maior telescópio orientável do mundo, no Green Bank, na Virgínia Ocidental, em direção ao corpo de quatrocentos metros de comprimento e o escaneou em busca de sinais de que podiam indicar que o estranho objeto fosse uma nave espacial de passagem.

Foi uma longa observação. Após dez horas, o telescópio, que é capaz de detectar um sinal de telefone celular ao dobro da distância do Sol, não encontrou nenhuma evidência de que o ‘Oumuamua seja o trabalho de uma civilização alienígena. De qualquer forma, o objeto é um pedaço de gelo e carbono, envolto em poeira escura, do tamanho de um arranha-céu, que simplesmente se enfiou em nosso Sistema Solar vindo de muito além das suas fronteiras. Mas, mesmo que a pesquisa não tenha encontrado nada, ela provocou a seguinte constatação: as caças mais arriscadas e audaciosas de vida extraterrestre são impulsionadas por dinheiro privado, não por governos e agências espaciais nacionais.

Esse não é o único exemplo. No início desta semana, o Departamento de Defesa dos EUA (o USDOD, na sigla em inglês) confirmou que realizou, dede de 2007, um programa que visou a investigação dos relatos de objetos voadores não identificados (Óvni ou UFO, na sigla em inglês), mas cortaram o financiamento cinco anos depois em face a preocupações mais importantes. Luis Elizondo, o oficial de inteligência militar que dirigiu o Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais (Advanced Aerospace Threat Identification Program), como o esforço foi nomeado, renunciou em outubro. Ele se juntou a um empreendimento privado para continuar seu trabalho nessa área de pesquisa.

De todos os métodos trazidos à tona sobre a questão de vida fora da Terra, os avistamentos de Óvnis estão no extremo mais distante na escala de credibilidade. Quando Monica Grady supervisionou a coleção de meteoritos da Grã-Bretanha no Museu de História Natural em Londres, ela recebeu muitas cartas sobre naves espaciais alienígenas nos céus da Grã-Bretanha. A maioria terminou no lixo, mas uma exemplificou o problema que muitos cientistas têm com tais relatos. Ela veio de um homem que fotografou o que ele descreveu como uma nave alienígena no fundo do seu jardim. Ninguém mais percebeu isso, ele observou pesarosamente, mas ele foi inflexível, a nave espacial, segundo ele, era responsável pela violência no trânsito, mortalidade infantil e sarampo. “Para mim, é a diferença entre astrologia e astronomia”, disse Grady, agora professora de ciência planetária na Open University. “Não temos evidências que indiquem ser mais provável que isso seja ou não uma nave alienígena”.

Poucos cientistas apostaram em encontrar algo mais exótico que os micróbios extraterrestres, pelo menos no nosso sistema solar. “Não esperamos chegar ao fundo do oceano de Encélado e encontrar fundições de metais”, disse Grady, referindo-se à água subterrânea na lua de Saturno, que ocasionalmente solta gêiseres para o espaço.

Andrew Siemion, que lidera as pesquisas do Breakthrough Listen no Centro de Pesquisa de Inteligência Extraterrestre de Berkeley, na Califórnia, é cético acerca de que UFOs visitaram a Terra. “Todos os tipos de astrônomos passam suas vidas olhando para o céu com todos os instrumentos concebíveis que podemos construir, e fazemos isso de forma independente, e nós nunca conseguimos uma foto de uma nave espacial. E posso te dizer que estudantes de graduação e pós-doutorado adorariam ser a primeira pessoa a tirar essa foto”.

Não é de se admirar, então, que os governos deixem as buscas mais especulativas de vida alienígena para os outros. Os programas que o dinheiro público financia tendem a evitar todos os UFOs mencionados – o termo perdeu sua ambiguidade intencional desde que foi cunhado na década de 1950 e se tornou sinônimo de nave espacial alienígena. Em vez disso, os programas enfatizam as ameaças potenciais colocadas por objetos aéreos inexplicáveis que podem ser fruto do trabalho secreto de nações hostis. Quando Nick Pope trabalhou com os avistamentos de Óvnis OVNI no Ministério da Defesa do Reino Unido na década de 1990, toda e qualquer menção a “OVNI” foi trocada em favor de outro termo mais financiável: UAP (sigla em inglês para “Unidentified Aerial Phenomena”), ou, em português, FANI, que significa Fenômenos Aéreos Não Identificados. “O termo OVNI tem muita bagagem de cultura pop”, disse Pope ao jornal The Guardian. “Nunca perderá essa ideia errônea”.

Enquanto a ufologia luta por credibilidade, a busca por transmissões alienígenas é uma ciência séria. Grande parte do céu foi varrida em busca de sinais alienígenas sob a forma de ondas ópticas, de infravermelhas e de rádio. Mas as buscas são muito extensas. As varreduras futuras poderiam sintonizar energia direcionados usados para impulsionar naves ou focar nos feixes de raios-x e de raios gama, ou mesmo radiação gravitacional. Quando o enorme radiotelescópio conhecido como Square Kilometer Array iniciar suas atividades em aproximadamente 2020, será a primeira empreitada sensível o bastante para detectar o equivalente a transmissões de TV em planetas em torno de Alfa Centauri, o sistema solar mais próximo da Terra. Pope acredita que são pesquisas como essas que finalmente responderão à pergunta “estamos sozinhos?”.

Descobertas a partir de telescópios terrestres e espaciais e missões planetárias robóticas sugerem fortemente que a vida deve existir em outro lugar. A água e as moléculas orgânicas necessárias para a vida, como a conhecemos, são onipresentes no espaço. E devido à missão Kepler da Nasa, os astrônomos acreditam que quase todas as estrelas da galáxia têm pelo menos um planeta em órbita. “Tudo o que é necessário para a vida surgir e prosperar neste planeta existe em abundância em todo o universo”, disse Siemion.

A questão, então, é “onde a vida ganhou força?”. “Pode estar em Europa, uma das luas de Júpiter; pode estar no fundo do oceano de Encélado e pode estar em Marte,” disse Grady. “Se os processos que iniciaram a vida na Terra são universais, então alguma forma de vida deveria ter começado”.

“A razão pela qual as pessoas estão tão incrivelmente interessadas e animadas é que é uma questão humana muito profunda. Temos o desejo básico de saber o que está além, o que está lá fora”, disse Siemion. “O que fizemos até agora é pouquíssimo. Temos muito trabalho a fazer”.

Tradução e adaptação realizada da publicação de Ian Sample com o título Why we keep scanning the skies for signs of alien intelligence  no The Guardian.

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