A ciência por trás de Sherlock Holmes

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Quando Sherlock Holmes conhece o Dr. John Watson pela primeira vez, ele identifica o histórico do médico em um piscar de olhos. Para muitos, esse momento de estreia do personagem é inesquecível na obra Um Estudo em Vermelho (1887), de Arthur Conan Doyle. Exceto que, na realidade, isso não é tão fantástico assim. Um dos mentores de Conan Doyle na Universidade de Edinburgh, no Reino Unido, onde ele estagiou como um oftamologista, foi o cirurgião Joseph Bell. E é a ele que devemos a famosa dedução de Sherlock sobre o Afeganistão, assim como grande parte do personagem Sherlock.

A perspicácia de Bell em diagnosticar é bem documentada, e foi tão afamado que serviu como cirurgião pessoal da Rainha Victória quando ela visitou a Escócia. Central em suas habilidades, estava seu poder de observação. Foi enquanto trabalhava na tutela de Bell que Conan Doyle testemunhou a identificação precisa do doutor acerca da antiga profissão de um ex militar das forças armadas, assim como onde ele havia servido — em Barbados. “O estudante deve ser ensinado a observar,” enfatiza Bell. Um paciente acreditaria na proeza do doutor “se ele ver que você, num relance, sabe muito sobre o seu passado”. Essa mensagem penetrou-se na mente do jovem Conan Doyle. Como ele escreveu para Bell anos depois, “Em volta do centro de dedução, de inferência e de observação que ouvi você inculcar, eu tentei construir um homem que conseguisse levar essas características tão longe quanto possível.”

O homem renascentista

Holmes, é claro, faz mais do que diagnosticar. Ele é químico, psicólogo, lógico, inventor: todas as faces que revestiram a vida pré-holmeniana de Conan Doyle. Naquela era de profunda mudança científica, ideias aparentemente improváveis  — tais como a Evolução e a existência de ondas eletromagnéticas — estavam, de repente, no centro das atenções. Tendo recusado sua educação jesuíta primária em relação ao darwinismo e ao empirismo, o próprio Conan Doyle estava próximo da revolução em andamento.

Os poderes de dedução do cirurgião Joseph Bell provaram-se uma inspiração para Arthur Conan Doyle no personagem Sherlock Holmes.
Os poderes de dedução do cirurgião Joseph Bell provaram-se uma inspiração para Arthur Conan Doyle no personagem Sherlock Holmes.

Em Edinburgh, ele encontrou muitos dos pensadores que estavam na vanguarda da inovação. O cirurgião e pioneiro da medicina anti-séptica, Joseph Lister, o apresentou ao trabalho de Louis Pasteur sobre a teoria dos germes. Conan Doyle ficou fascinado com as possibilidades abertas para a medicina — uma fascinação que Holmes levaria para o caráter ficcional. Em Um Estudo em Vermelho, por exemplo, Holmes exclama, “Eu descobri um reagente que é precipitado pela hemoglobina e por nada mais.” A ficção precedeu a ciência: o bacteriologista alemão Paul Uhlenhuth descobriu o teste de precipitina para o sangue humano apenas em 1900.

Conan Doyle também encontrou o analista de toxicologia Robert Christison, um perito e testemunha em vários casos criminais — e uma inspiração para Sherlock Holmes ser um perito em venenos. Foi através de seu interesse por ciências forenses que Conan Doyle foi exposto a outro inovador: Alphonse Bertillon, um pioneiro na antropometria, cuja medição pessoal é usada para identificar criminosos (impressões digitais devem sua existência ao trabalho de Alphonse). Onde quer que a exposição tenha acontecido, ela ficou. Em O Cão dos Baskervilles (1902), vemos que Holmes é tido apenas como “o segundo maior perito na Europa” em antropometria, ficando atrás de Alphonse (Holmes implora para que seja assim). Treinado em medicina, Conan Doyle acreditava, incentivava um “ceticismo saudável” e a aceitação dos fatos: “os principais pilares para toda a mente.” Certamente, Holmes é o maior dentre os céticos saudáveis.  

Intencionalmente ou não, Holmes também emergiu como um porta-voz científico para as massas. Conan Doyle faz referência ao uso por Lister de ácido carbólico como antiséptico na história O Polegar do Engenheiro, de 1892, quando Watson a usa numa ferida. Antes de Sigmund Freud tornar-se um nome popular, Holmes fora induzido a desejos ocultos e impulsos, apesar d’ele ter baseado suas conclusões em, decididamente, em critérios mais objetivos. Ele se pergunta, por exemplo, sobre o que levaria um treinador a machucar seu próprio cavalo, o principal insight da história Silver Blaze, de 1892. (Conan Doyle leu os primeiros escritos de Freud, assim como o paper Über coca, de 1884, que impulsionou a experiência de Holmes com a cocaína.)

A mente de Holmes

É para a psicologia, talvez, que a contribuição científica de Holmes torna-se mais evidente. Por exemplo, o paper de 1956 “O mágico número sete, mais ou menos dois,” de George Miller, que postula que humanos podem processar cognitivamente apenas aproximadamente sete peças de informações a qualquer momento. Não parece, para mim, coincidência que Miller usou uma imagem de uma cabeça cortada num sótão ao invés de um cérebro — um provável eco da conceitualização de Holmes acerca da memória em Um Estudo em Vermelho. O cérebro é, Holmes diz, como um “pequeno sótão vazio” mas, por conta da falta de “paredes elásticas”, o “hábil trabalhador tem cuidado em damasia” sobre o que ele leva para dentro do sótão.

O casamento de Holmes com o mindfulness [atenção plena] nasceu mais de um século antes do conceito tornar-se universal. Considere seu método de resolver um crime: contemplar primeiro, olhos fechados, dedos relaxados. Uma passagem no conto de 1891 A Liga dos Cabeças Vermelhas é um exemplo fundamental. Watson, ao perguntar a opinião de Holmes sobre o caso, Holmes entona: “É um problema bastante complexo, e eu te imploro para não falar comigo durante cinquenta minutos.” O que é esta meditação que ele faz? Holmes eleva a contemplação a outro nível, com foco total e sem distrações. Até ficamos sabendo que o detetive estudou com o “cabeça de Llama” no Tibet durante o Great Hiatus, período posterior à sua suposta morte pelo professor Moriarty — outro cientista, possivelmente baseado no brilhante e rancoroso astrônomo Simon Newcomb.

Igualmente importante é o explorar detalhado de Holmes sobre a tomada de decisão tendenciosa e o choque entre decisões de cabeça fria e de emoções calorosas. Como ele explica a Watson em O Sinal dos Quatro (1890), “um cliente é para mim uma mera unidade, um fator em um problema. As qualidades emocionais são antagônicas ao raciocínio claro”, acrescentando que “o homem mais repelente do meu conhecimento é um filantropo que gastou quase um quarto de milhão com os pobres de Londres”. A emoção é responsável por muitos dos viéses na tomada de decisão explorados por psicólogos como Daniel Kahneman, em seu Thinking, Fast and Slow (Farrar, Straus e Giroux, 2011).

Holmes é um ícone continuamente reinterpretado. A coleção de contos de Conan Doyle As Aventuras de Sherlock Holmes, de 1892, sozinha, vendeu dezenas de milhões. Não conseguimos nos cansar dele — e isso, penso, é algo bom. Como campeão da observação e personificação do racionalismo, Holmes se faz mais relevante do que nunca em um mundo marcado pela negação da ciência e emoções em excesso. “Você conhece meus métodos. Aplique-os,” o detetive diz a Watson em O Sinal dos Quatro. Está na hora de os aplicarmos.

Tradução realizada por Élisson Amboni da publicação original da Nature com o título Fiction: The science in Sherlock Holmes, de Maria Konnikova.