DNA antigo mostra como os gatos dominaram o mundo

Os gatos se espalharam do norte da África e do Oriente Médio em duas levas, e provavelmente viajaram em navios Viking, descobriu um novo estudo a partir de DNA antigo desses felinos. De Karin Brulliard, para...

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Os gatos se espalharam do norte da África e do Oriente Médio em duas levas, e provavelmente viajaram em navios Viking, descobriu um novo estudo a partir de DNA antigo desses felinos.

De Karin Brulliard, para o The Washington Post

 

Milhares de anos antes de Hello Kitty e do Grumpy Cat, a gata emburrada que ficou famosa na internet, alguns felinos selvagens e os primeiros agricultores fizeram um acordo tácito: um lado agiria um pouco mais dócil e mataria os invasores dos campos de cereais e o outro toleraria a presença dos gatos e os deixaria comer as sobras. Muito tempo tem se passado desde a domesticação de gatos.

Mas um novo estudo de DNA dos ossos e dentes de mais de 200 restos mortais de gatos antigos revela muito sobre quando e como os gatos selvagens — solitários, reclusos e muito mal-humorados — começaram a acolchoar os caminhos nas bordas da civilização em direção a nossas casas e corações.

Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu que a dispersão dos gatos aconteceu em dois momentos: primeiro do Crescente Fértil e depois do Egito. E sua migração provavelmente inclui viagens nos navios Viking.

Se os gatos domésticos são verdadeiramente domesticados é assunto de debate entre cientistas. Seus genes não são muito diferentes dos de gatos selvagens, nem seus corpos ou características — eles não têm, por exemplo, as orelhas flexíveis e as caudas enroladas comuns a muitos animais domesticados.

Além disso, embora alguns deles estejam perfeitamente felizes em se enrolar em volta de humanos, os gatos, ao contrário de seus companheiros caninos, são capazes de viver ao ar livre e se alimentar por si só. Mas, em algum momento, os felinos selvagens entraram em casa e se lançaram rumo à, como muitos autores chamam, “conquista do mundo pelo gato”.

Como foi estabelecido por pesquisas anteriores, as origens de todos os gatos modernos são identificadas em uma subespécie de gato selvagem, Felis silvestris lybica, que é nativa do norte da África e do sudoeste da Ásia e provou ser mais facilmente domesticada do que as outras quatro subespécies.

“Para obter a imagem real, devemos voltar aos restos antigos e analisá-los”, disse em entrevista Eva-Maria Geigl, autora do estudo e geneticista evolucionista do Institut Jacques Monod em Paris. “Nós tentamos obter uma imagem de como a distribuição de gatos selvagens ocorreu antes da domesticação ter ocorrido”.

 

A equipe analisou o DNA mitocondrial, que é passado pela mãe e melhor preservado, dos restos mortais que abrangem nove mil anos e locais em toda a Europa, África e Oriente Médio.

Uma linhagem estava enraizada no Crescente Fértil, onde os seres humanos que ainda estavam descobrindo agricultura há mais de dez mil anos provavelmente perceberam que alguns gatos selvagens locais eram amigáveis e úteis, disse Geigl. “Ambos os lados se beneficiaram uns dos outros”, disse ela. “Os seres humanos estavam felizes, havia menos roedores, e os gatos tinham comida”.

Pouco depois de os primeiros agricultores terem migrado para a Europa a cerca de sete mil anos atrás, os gatos começaram a aparecer em locais mais a oeste também, sugerindo que eles nos seguiram — e foram autorizados a fazer isso.

Mas o estudo descobriu que foi uma linhagem egípcia de gatos que realmente tomou posse de partes da África e da Europa a vários milhares de anos depois, começando já em 1.700 a.C., mas que realmente se acelerou dos séculos V ao XIII.

Os gatos que permaneceram carregando esta linhagem foram encontrados em uma rota comercial Viking no Mar Báltico no norte da Alemanha, dando créditos à ideia de que os gatos estavam prestando serviços de controle de pragas em navios pela Idade Média.

“Quando olhamos para o padrão que temos, isso nos diz a história da mobilidade humana — caminhos de guerra, caminhos comerciais e principalmente caminhos marítimos”, disse Geigl. “Este deve ter sido um gato que era na época muito atraente para as pessoas, porque se espalhou muito eficientemente”.

Os pesquisadores, cujo artigo foi publicado na Nature Ecology & Evolution, também decidiram dar uma olhada em uma das características mais evidentes que diferenciam as estrelas da internet de hoje dos seus primos selvagens de antigamente: seus pelos. Enquanto os gatos selvagens têm padrões listrado, “pintados” e malhados, apenas os malhados domésticos têm pelagem manchadas. Já se sabia que esse padrão é causado por uma mutação genética, então Geigl e seus colegas procuraram essa mutação pelo antigo DNA felino.

Ela (a mutação) apareceu pela primeira vez na Idade Média, sugerindo que a domesticação como a conhecemos — com algum tipo de criação seletiva — não havia começado até então. Esta data, bastante tardia, fornece ainda mais evidências de que a domesticação do gato não foi um processo rápido. A verdadeira criação seletiva de gatos, do tipo que levou a raças como o Scottish Folds e o Gato-de-bengala (ou Bengals), não começou até o século XIX.

Geigl disse que gostaria de fazer um trabalho adicional para determinar como os gatos pretos, que a iconografia egípcia retratada, surgiram. Mas seu interesse sobre os gatinhos é menor em relação a outro:  “É um pouco misterioso para mim o porquê de as pessoas gostarem tanto dos gatos”, disse ela. Isso é mais do que as pesquisas evolutivas sobre a domesticação podem dizer.

“A evolução ocorre mais rápido quando você seleciona certos traços”, disse ela. “Ao analisar este tipo de processo seletivo, você consegue um modelo de como a evolução funciona”.

Do Science Alert. Este artigo foi originalmente publicado pelo The Washington Post.

Referência:

  1. OTTONI, CLAUDIO et al. The palaeogenetics of cat dispersal in the ancient world; Nature Ecology & Evolution, 19 de junho de 2017, <https://www.nature.com/articles/s41559-017-0139>.
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