O filósofo que também é historiador

Bertrand Russell mostra que a história da filosofia pode ser filosofia ao mesmo tempo que também é história.

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Bertrand Russell foi várias coisas: lógico, matemático, ativista contrário à guerra, agnóstico* e, inesperadamente, historiador da filosofia. Inesperadamente porque tendemos a pensar da filosofia — especialmente o tipo de filosofia técnica e analítica que Russell foi pioneiro — como uma disciplina a-histórica. Esta é uma atitude que foi resumida por uma nota fixada na parede do escritório do filósofo Gilbert Herman: “História da filosofia: nem pensar!” Mas a ocasião imediata foi mais paroquial que a frase de Herman pôde sugerir. Ele estava protestando contra a ideia de que estudantes de filosofia, em Princeton, fossem obrigados a estudar a história da filosofia. Ele, mais tarde, comentou que apesar de não ter nada contra a história da filosofia, ele via a mesma distintamente da própria filosofia.

A maioria, provavelmente, discordaria de Herman sobre o ensinamento no currículo, mas concordariam com o último ponto. Afinal, não esperamos que grandes filósofos sejam grandes historiadores de filosofia. Apesar do fato de que alguns dos grandes filósofos têm, de fato, investigado a história de sua disciplina.

O primeiro caso na esfera europeia seria Aristóteles, que reportou o grande valor dos filósofos pré-socráticos. Mas precisamente porque ele foi um grande filósofo, sua apresentação tende a distorcer e obscurecer as visões desses pensadores, desde que ele classifica-os da forma que mais lhe agrada, por exemplo, pela leitura de suas cosmologias tanto quanto muitas tentativas para determinar o número correto de princípios na natureza. Uma fonte, de longe mais informativa, sobre os pré-socráticos é o pensador menos conhecido Simplício. Ele tinha sua própria agenda, mas não era uma filosófica. Ao invés disso, ele desejou anotar o que ele caracterizou de pensamento pagão “antigo”, antes que fosse perdido na ascensão da cristandade.

Russell pode ter simpatizado com Simplício no que diz respeito ao cristianismo, mas, de outra forma, ele parece mais comparável a Aristóteles, já que ele foi um outro grande filósofo que, no final das contas, também era historiador da filosofia. O resultado foi “A História da Filosofia Ocidental”, publicada em 1946 [pelo qual ele venceu o Nobel de literatura]. Para ser franco, o livro tem suas falhas. Por exemplo, Russell tem o hábito de dizer que algumas coisas não valem a pena levar a sério. Um caso notório, ao menos num assunto que estou por dentro, é seu breve e desonesto capítulo sobre “ A Cultura Maometana e sua Filosofia”. Seu julgamento é, “A filosofia árabe não é importante como pensamento excêntrico. Homens como Avicena e Averróis são, essencialmente, comentadores.” Essas são linhas que eu tenho visto serem parafraseadas inúmeras vezes em conferências sobre o pensamento Islâmico, e, obviamente, sem aplausos. Alguns outros capítulos são demasiados desdenhosos, mas muitos oferecem um pouco mais que esboços sobre o tema tratado.

No entendo, em pelo menos dois aspectos a História de Russell faz-se admirável e torna a leitura merecedora. O primeiro não é tão inesperado: ele é um grande filósofo e faz argumentações incisivas, geralmente rápidas. Por exemplo, quando ele fala sobre o famoso pensamento de Descartes “Penso, logo existo”, Russell menciona que o ceticismo tem que “ter um limite” e seu limite é gerado não apenas por fatos incontestáveis, mas, também, por leis inferenciais incontestáveis. Esta é uma observação válida, porque nos recorda que o método de Descartes de duvida universal não afeta as leis da lógica.

Como podemos esperar, Russell também oferece opiniões penetrantes em assuntos como a lógica Aristotélica. Nestas passagens, ele navega facilmente da história da filosofia até a expressar sua própria filosofia: a “substância”, na verdade, é meramente uma maneira prática de reunir eventos separados. Muitos dos filósofos dos quais ele fala não são do seu gosto, e afirma sem medo: ele considera o idealismo de Fitche “insano”. Sua antipatia ao idealismo e ao subjetivismo é seu principal objetivo em todo o livro. Contudo, Russell também acha algo a dar valor em tais pensadores. Schopenhauer, apesar da “inconsistência e certa superficialidade,” oferece suporte crítico à tendência generalizada de pensadores ocidentais que pensam que “todo mau pode ser explicado.”

A segunda virtude do livro é o ressalte que Russell dá em seu Prefácio: há muita história nesta História da Filosofia. Ele faz o óbvio em oferecer resquícios biográficos de cada pensador, enfatiza as conexões entre a vida e o pensamento. Por exemplo, ele acha Plotino inspirador como pessoa, enquanto condena Schopenhauer de egoísmo hipócrita. Mas mais do que isso, ele constantemente investiga o contexto histórico no qual a filosofia desenrolou-se; ele até mesmo eleva isso como a principal característica que distingue sua história da filosofia de outras. O capítulo acima mencionado, sobre o mundo Islâmico, breve como é, encontra espaço para uma visão geral da história inicial do Islã, e muito é dito mais adiante acerca de tópicos históricos como Esparta, o Império Romano e a Reforma Protestante.

Certamente, a história de Russell é muito seletiva. Ele está mais do que feliz em pular de um grande pensador para o outro, de modo que muitos personagens fascinantes não são mencionados. Ele escreve, também, no prefácio: “Eu omiti homens que, para mim, não mereciam ser citados” — aparentemente não achando necessário citar pensadoras mulheres, também. Nem faz sua “História” se aventurar além do pensamento “Ocidental”, como seu título intima.

Deste modo, Russell não aborda sobre tudo. Mas o que ele cobre é colocado em algum tipo de contexto histórico, mesmo que seja avaliado de um ponto de vista filosófico. Por mais obsoleto que seja o julgamento de Russell sobre textos e tradições particulares, por maior que seja sua cegueira, podemos perceber, ao lê-lo, que Herman estava errado; Russell mostra que a história da filosofia pode ser filosofia ao mesmo tempo que também é história.

Referências e observações

*No original, o autor declarou Russell um ateu, apesar de sua corrente de pensamento estar muito mais relacionada ao agnosticismo.

Escrito por Peter Adamson com o título The Philosopher as Historian para a revista filosófica “Philosophy Now”;

Traduzido e adaptado por Elisson Amboni.

 

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