Nova estação vai impulsionar pesquisas na Antártica, diz coordenador do MCTIC

A reconstrução da estação brasileira de pesquisa na Antártica deve ser concluída no primeiro semestre de 2018, disse Andrei Polejack à Frente Parlamentar Mista de Apoio ao Programa Antártico Brasileiro. Para o coordenador, Proantar é...

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A reconstrução da estação brasileira de pesquisa na Antártica deve ser concluída no primeiro semestre de 2018, disse Andrei Polejack à Frente Parlamentar Mista de Apoio ao Programa Antártico Brasileiro. Para o coordenador, Proantar é programa de Estado.

Em janeiro deste ano, uma equipe de engenheiros e técnicos deu início à reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF). A meta é concluir os trabalhos no primeiro semestre de 2018. Ao custo de US$ 99,6 milhões, a nova base está sendo construída pela empresa estatal Corporação Chinesa de Importações e Exportações Eletrônicas (CEIEC, na sigla em inglês), vencedora da licitação. Todo o custo da obra, desde a infraestrutura à logística, é financiado pela Marinha do Brasil e pelo Ministério da Defesa. O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) financia a pesquisa científica desenvolvida no continente gelado.

A cada ano, cerca de 300 pesquisadores realizam estudos ligados aos fenômenos da alta atmosfera, como temperatura e ondas gravitacionais, à dinâmica do buraco de ozônio atmosférico e dos raios ultravioleta, e aos parâmetros atmosféricos de superfície, além de inventários de fauna e flora locais (ambos terrestres e marinhos), qualidade do ar e impactos ambientais locais (contaminação de solos).

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“As mudanças climáticas são mais percebidas nos polos, que atuam como reguladores do clima e da temperatura por todo o planeta. Conseguimos avançar nossa atuação no continente e, hoje, temos maturidade suficiente para elencar qual é a prioridade nacional de pesquisa na Antártica até 2022”, afirmou Polejack, que participou nessa quarta-feira (21) de uma reunião com a Frente Parlamentar Mista de Apoio ao Proantar.

Ele ressaltou ainda que a reconstrução da EACF vai possibilitar a continuidade das pesquisas nas áreas de biologia, meteorologia, aeronomia (área de estudo que trata da análise físico-química das camadas superiores da atmosfera) e relações Sol e Terra, que se iniciaram em sua implantação, em 1984, e que só tiveram períodos de descontinuidade devido ao incêndio ocorrido em fevereiro de 2012.

Polejack também ressaltou o trabalho dos parlamentares na garantia de recursos para o programa. “Foi essa Frente que conseguiu dar apoio para que conseguíssemos avançar com os recursos do Prontar, como, por exemplo, quando o Brasil participou do Ano Polar Internacional, entre 2007 e 2008. Sem o empenho do Parlamento, o Brasil ficaria de fora. Nossa presença só foi possível com recursos da Frente Parlamentar. Outro exemplo é o edital de 2009, um marco para as pesquisas no continente, que só foi possível com os recursos alocados por intermédio da Frente. Esse é um programa de Estado, um programa do Brasil”, afirmou.

Orçamento

Na avaliação do presidente em exercício da Câmara dos Deputados, Fábio Ramalho (PMDB-MG), a Frente Parlamentar Mista de Apoio ao Proantar tem o dever de solicitar ao governo federal a destinação de recursos orçamentários para garantir o funcionamento do programa.

“Temos que alocar recursos para esse projeto necessário. E todos os anos devemos colocar uma emenda individual para dar continuidade ao Proantar. Nós, parlamentares, também devemos pedir ao governo federal a destinação, ainda para este ano, de mais recursos para o projeto. É nos momentos de crises que se abrem oportunidades para o futuro. A ciência tem que estar preparada o futuro”, afirmou o parlamentar.

Já o presidente da Frente Parlamentar Mista de Apoio ao Proantar, senador Cristovam Buarque (PPS-DF), ressaltou a necessidade de definir as prioridades para o país. “Esse programa, certamente, é uma delas. [O Proantar] nos permite o desenvolvimento científico e tecnológico estando na antártica. Contem conosco por recursos, pelo apoio no que for preciso, para que nossa presença na Antártica continue e que possamos, em março, inaugurarmos a nossa nova estação. Com isso, mostrar que saímos de um incêndio para algo muito melhor”, disse o senador, em referência ao incêndio que destruiu a base brasileira em fevereiro de 2012.

Nova estação

A nova estação Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) está sendo construída no mesmo local da anterior: na ponta da Península Keller, às margens da Baía do Almirantado, na Ilha Rei George, a 900 km ao sul da Patagônia — basicamente, o mais perto que se pode estar da América do Sul na Antártida.

Ao todo, serão quatro mil e quinhentos metros quadrados de área construída (comparado a 2,5 mil da base anterior), com 17 laboratórios, biblioteca, ambulatório, área de convivência e acomodações para 64 pessoas, incluindo pesquisadores e pessoal da Marinha, que é a responsável pela gestão da estação. A meta é concluir a obra em 2018.

A nova estação contará com 17 laboratórios, ultrafreezers para armazenamento de amostras e materiais usados nas atividades científicas, setor de saúde, biblioteca e sala de estar. Segundo o coordenador-geral de Oceanos, Antártica e Geociências do MCTIC, Andrei Polejack, a área de pesquisa científica foi projetada para atender a uma multiplicidade de exigências, com prioridade para os projetos do

Para ver a localização exata da Estação Comandante Ferraz no Google Maps, clique aqui: https://goo.gl/maps/FBp3G5968Qt
Para ver a localização exata da Estação Comandante Ferraz no Google Maps, clique na imagem ou clique aqui: https://goo.gl/maps/FBp3G5968Qt

Expectativas

A ansiedade dos cientistas brasileiros que trabalham no continente gelado é grande e eles esperam ver nova base concluída o quanto antes para retomarem as pesquisas.  Desde o incêndio na estação brasileira em 25 de fevereiro de 2012, atualmente os pesquisadores contam apenas com instalações provisórias, os chamados Módulos Antárticos Emergenciais, que ocupam o local do antigo heliponto da estação. A solução tem funcionado adequadamente, permitindo a continuação das pesquisas científicas brasileiras de forma satisfatória, mas isso não exime o fato de que é uma solução provisória.

“A construção da nova base é fundamental para os experimentos da área biológica, com foco em ecossistemas e biodiversidade, que têm mostrado avanços significativos nos últimos anos”, diz a microbióloga Vivian Pelizzari, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP). “O apoio dos laboratórios é essencial para a continuidade de muitos projetos na Baía do Almirantado, que é um local importante para acompanhar as mudanças climáticas na Antártida”, segundo informou o blog de Herton Escobar para o jornal O Globo.

Ainda de acordo com a reportagem do blog, o pesquisador João Paulo Machado Torres, do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que “a base é essencial, e um motivo de orgulho para todos nós. Torres estuda poluição ambiental e participou de quatro expedições à Antártida e, inclusive, estava na estação quando ela pegou fogo.

Apreensões

Pelos planos originais, a nova base deveria estar pronta, mas o governo enfrentou atrasos para contratar a obra. No início de 2014, a primeira licitação, procedimento legal obrigatório nas aquisições e contratações do setor público, terminou sem que nenhum interessado apresentasse proposta. A segunda licitação recebeu propostas de empresas interessadas na obra, contudo o resultado foi contestado pelas concorrentes, o que gerou um longo período de espera por conta do prazo legal exigido para análise dos recursos. Por fim, a vencedora foi a chinesa CEIEC (China Electronics Import as Export), que vai cobrar US$99,6 milhões de dólares (em várias parcelas) pela execução da obra.

Apesar do fato de que os trabalhos na obra estarem em andamento, os cientistas brasileiros que pesquisam no continente seguem apreensivos. “Até outubro já teremos como fazer ciência na Antártida. Depois disso, não sei” disse o pesquisador Jefferson Simões, glaciologista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A inquietação é por conta do temor de que para produzir ciência na nova base Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) haja uma escassez de recursos. “A nossa grande preocupação agora é com a continuidade dos recursos”, afirma Simões segundo o blog do Estadão. O cientista argumenta que os dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) dedicados à pesquisa no continente gelado, o INCT da Criosfera e o INCT Antártico de Pesquisas Ambientais, só dispõem de recursos para operarem até setembro deste ano. O edital para um novo INCT fora lançado em 2014, mas sem resultados divulgados até o momento — estaria parado, segundo a fonte consultada, por falta de recursos. Outros 19 projetos de pesquisa estariam na mesma situação: paralisados por falta de dinheiro.

Até outubro já teremos como fazer ciência na Antártida. Depois disso, não sei.Jefferson Simões, glaciologista da UFRGS, coordenador o INCT da Criosfera.

Considerando que o último edital dedicado ao Proantar foi publicado em 2013 e que a crise econômica por que passa o país, embora tenha dados parcos sinais de melhora nos últimos meses, tenha o potencial de afetar a arrecadação de recursos do governo a preocupação dos pesquisadores brasileiros na Antártida é compreensível. “A instalação de uma segunda estação de pesquisa automatizada no interior do continente (chamada de Criosfera 2) já teve que ser adiada por falta de recursos”, disse Simões ao Globo. “E estamos tentando não abandonar a [estação de pesquisa] Criosfera 1, porque falta dinheiro para a manutenção”, concluiu.

Instalações atuais da Estação Antártica Comandante Ferraz, com os Módulos Antárticos Emergenciais. Foto: Marinha do Brasil / O Globo
Instalações atuais da Estação Antártica Comandante Ferraz, com os Módulos Antárticos Emergenciais. Foto: Marinha do Brasil / O Globo

Boa parte das pesquisas científica brasileiras no continente gelado dependem de estações fixas. E a outra parte que sobra é oriunda de acampamentos temporários e de navios de pesquisa da Marinha do Brasil. “Cerca de 25% das pesquisas na Antártida dependem diretamente das instalações fixas em terra”, segundo Simões ao blog do jornal. “Os outros 75% são realizados por meio de acampamentos temporários e, principalmente, dos navios de pesquisa da Marinha: Almirante Maximiano e Almirante Ary Rongel”.

A reconstrução da estação de pesquisa carrega também um peso geopolítico considerável, além das suas finalidades científicas. “É uma demonstração muito forte para a comunidade científica e a diplomacia internacional que o Brasil mantém seu interesse na Antártida”, observa Simões. O país é membro do Tratado da Antártida desde 1975. O Programa Antártico Brasileiro é coordenado pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar.

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Com informações do blog de ciência do O Globo e do MCTI / Assessoria de Comunicação.

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