Deixe-me te apresentar ao Steve

Se há uma coisa que as mídias sociais nos ensinam hoje é a não deixar o direito de dar nomes para a mente da multidão. Veja o exemplo do Boaty McBoatface – um navio polar...

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Se há uma coisa que as mídias sociais nos ensinam hoje é a não deixar o direito de dar nomes para a mente da multidão.

Veja o exemplo do Boaty McBoatface – um navio polar de pesquisa científica nomeado em homenagem a Sir David Attenborough por meio de votação pública.

Bem, agora a história de dar nomes ruins pela mente coletiva se repete. Um grupo de entusiastas sobre auroras deram a um fenômeno atmosférico recentemente descoberto o nome “Steve”. E por quê? Porque…

Ora, do que mais nós poderíamos chamar uma luz misteriosa brilhante no céu?

Embora possível a dedução, “Steve” não é uma homenagem ao Professor Stephen Hawking ou ao físico teórico Steven Weinberg,

A inspiração para o nome dado pelo grupo do Facebook Alberta Aurora Chasers veio de uma cena no filme de animação Os Sem-Floresta (Over the Hedge, direção de Tim Johnson e Karey Kirkpatrick, EUA, 2006) em que um dos personagens dá a uma cerca um nome para torná-la menos assustadora.

Mas não se preocupe! Não há nada de aterrorizante sobre este Steve recém-nomeado.

Trata-se de uma fita de luz cintilante deslumbrante no hemisfério norte, cujas imagens foram compartilhadas no grupo do Facebook no ano passado, sendo considerada por parte dos membros como uma aurora de prótons.

Graças aos cientistas, aos cientistas cidadãos, aos criadores de imagens terrestres e à missão de enxame de campo magnético da ESA, esta raia de luz púrpura no céu noturno foi descoberta. Originalmente pensado para ser um "arco de prótons", este recurso estranho tem sido chamado de Steve. Embora ainda haja muito a aprender sobre Steve, o instrumento de campo elétrico realizado na missão Swarm o mediu. Voando através de Steve, a temperatura de 300 km acima da superfície da Terra saltou por 3000 ° C e os dados revelaram uma faixa de gás de 25 km de largura que flui para oeste em cerca de 6 km / s em comparação com uma velocidade de cerca de 10 m / s de ambos os lados da fita. Créditos: ESA / Dave Markel Photography
Graças aos cientistas, aos cientistas cidadãos, aos criadores de imagens terrestres e à missão Swarm da ESA de mapeamento do campo magnético terrestre, esta raia de luz púrpura no céu noturno foi descoberta. Originalmente pensado com um “arco de prótons”, este fenômeno estranho tem sido chamado de Steve. Embora ainda haja muito a aprender sobre o Steve, o instrumento de campo elétrico e magnético instalado no um dos satélites na missão Swarm o mediu. Voando através de Steve, a temperatura de 300 km acima da superfície da Terra saltou por 3000 °C e os dados revelaram uma faixa de gás de 25 km de largura que flui para oeste em cerca de 6 km/s em comparação com uma velocidade de cerca de apenas 10 m/s de ambos os lados da fita de luz. Créditos: ESA / Dave Markel Photography

Você pode estar familiarizado com os tipos mais “normais” de auroras, que são as cortinas de luz que brilham nos céus acima dos polos do planeta, causadas por correntes de partículas carregadas canalizadas pelo campo magnético da Terra, onde elas penetram na atmosfera.

À medida que os elétrons atingem os diferentes gases, podemos vê-los emitirem diferentes cores de luz, e a produção daquilo que, coloquialmente, são chamadas de luzes do sul e do norte.

Os prótons podem atingir os gases também; mas, enquanto os elétrons que saltam livres podem fazer com que a luz da aurora voe para baixo, os comprimentos de onda emitidos pelas colisões de prótons não são visíveis.

O físico Eric Donovan da Universidade de Calgary no Canadá entendeu essa sutil diferença, por isso não estava convencido de que as imagens fossem de auroras de prótons. O Steve tinha que ser outra coisa.

Desde as primeiras imagens postadas, mais de cinquenta novos relatos de avistamento do Steve foram compartilhados.

Confira o vídeo abaixo de algumas imagens de Steve, postado pelo blogue Aurorasaurus:

 

As mídias sociais, os blogues amadores e os projetos do cidadãos dedicados à ciência estão fornecendo aos pesquisadores observações e um poder da inteligência de multidões como nunca antes, permitindo que os cientistas detectem tudo, desde novas espécies animais e vegetais a novos planetas.

As luzes do norte e a Swarm

A missão de campo magnético Swarm da ESA também conheceu o Steve e está a ajudar a compreender a natureza desse fenômeno.

Enquanto a exibição de luz misteriosa e brilhante das auroras pode ser bonita e cativante, elas também são um lembrete visual que a Terra está conectada eletricamente ao Sol.

Uma melhor compreensão da aurora contribui ao entendimento da relação entre o campo magnético da Terra e as partículas atômicas carregadas que fluem do Sol, como o vento solar.

A aurora boreal é uma exibição visível de partículas atômicas carregadas eletricamente do Sol interagindo com o campo magnético da Terra. Crédito: Sherwin Calaluan
A aurora boreal é uma exibição visível de partículas atômicas do Sol carregadas eletricamente interagindo com o campo magnético da Terra. Crédito: Sherwin Calaluan

Em uma reunião de ciência do Swarm no começo do ano, no Canadá, Donovan explicou que este novo achado não poderia ter acontecido há 20 anos, quando começou a estudar a aurora.

“Em 1997, tínhamos apenas um visualizador de todos os céus na América do Norte para observar a aurora boreal do solo”, disse o Prof. Donovan.

“Naquela época teríamos sorte se tivéssemos uma fotografia tirada do chão de uma noite de aurora que coincidisse com uma observação de um satélite. Agora temos muitas mais imagens de satélite e missões com satélites como a Swarm para que possamos obter mais de cem [coincidências] em uma noite.”

A atual parceria entre as mídias sociais e os cientistas cidadãos tem sido de grande relevância à produção científica.

Cita-se como exemplo o site Aurorasaurus, que possibilita a difusão para um grande número de pessoas de eventos relacionados à aurora boreal. Conecta os cidadãos interessados em ciência aos feeds de redes como o Twitter, em busca de ocorrências para a palavra ‘aurora’. É uma excelente ferramenta de previsão sobre a localidade da aurora.

Em uma conversa recente, o Prof. Donovan conheceu membros de outro grupo de mídia social no Facebook: o Alberta Aurora Chasers. O grupo atrai o público interessado no céu noturno e possui fotógrafos talentosos como membros. Ao olhar para as suas fotografias, foi que o Prof. Donovan encontrou algo que não tinha visto antes.

Enquanto os Aurora Chasers percorreram suas fotos e ficaram de olho nas próximas aparições de Steve, o Prof. Donovan e seus colegas se voltaram para os dados da missão Swarm e sua rede de câmeras de todos os céus. Assim, não demorou muito para que ele fosse capaz de combinar um avistamento do Steve com uma passagem de um dos três satélites Swarm.

Combinando informações sobre os horários e locais de ocorrência do Steve com dados recolhidos pela missão de campo magnético Swarm da ESA, Donovan começou a reunir algumas das características incomuns do fenômeno.

Em suas palavras:

Quando o satélite [da Swarm] voou diretamente através de Steve, os dados do instrumento de campo eletromagnético dele mostraram mudanças muito claras”, disse Donovan. “A temperatura a 300 quilômetros acima da superfície da Terra saltou por 3.000 ° C e os dados revelaram uma faixa de 25 quilômetros de gás que flui para oeste a uma velocidade de cerca de 6 km/s em comparação com uma velocidade de cerca de 10 m/s de cada lado da fita.”

George Dvorsky do Gizmodo, Donovan declarou que ele e seus colegas imaginam o que está a causar o imenso aumento de temperatura dentro de Steve. Contudo, preferem manter os detalhes sob seus chapéus, enquanto decidem o momento oportuno para publicá-los.

O cientista da missão Swarm da ESA, Roger Haagmans, acrescenta que “é incrível como um belo fenômeno natural, visto por cidadãos observadores, pode desencadear a curiosidade dos cientistas”. E ele completa: “A rede de terra e as medições de campo elétrico e magnético feitas por Swarm são ótimas ferramentas que podem ser usadas para entender melhor Steve. Isto é um bom exemplo da sociedade para a ciência.

Embora este primo bonito das auroras possa ser novo para os cientistas, certamente não é. Trata-se, apenas, de um fenômeno raro.

“Acontece que o Steve é realmente muito comum, mas não tínhamos percebido isso antes e graças às observações terrestres, aos satélites, à explosão de hoje de acesso a dados e a um exército de cientistas cidadãos unindo forças para documentá-lo”, disse Donovan. A missão “Swarm nos permite medi-lo e tenho certeza que vai continuar a ajudar a resolver algumas perguntas sem resposta”, o professor Donovan concluiu.

O nome Steve pode nem ser tão ruim, se considerarmos que um dos membros do grupo Alberta Aurora Chasers chegou a sugerir que poderia se tornar um acrônimo para “Strong Thermal Emission Velocity Enhancement” (algo como “Forte Aumento da Velocidade de Emissão Térmica”).

Isso é algo que nós não poderemos fazer tão facilmente com o nome Boaty McBoatface.

 Referências:

  1. European Space Agency – ESA. When Swarm Meet Steve. <http://www.esa.int/Our_Activities/Observing_the_Earth/Swarm/When_Swarm_met_Steve> Acesso em 23/05/2017.
  2. MCRAE, M. Introducing Steve – a Newly Discovered Astronomical Phenomenon. ScienAlert, abril de 2017. <https://www.sciencealert.com/introducing-steve-a-newly-discovered-light-in-the-sky> Acesso em 23/05/2017.
  3. Swarm explores a new feature of the northern lights. Phys.org, abril de 2017. <https://phys.org/news/2017-04-swarm-explores-feature-northern.html> Acesso em 23/05/2017

 

 

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